CAPÍTULO 1
APRESENTAÇÃO E OBJETIVOS DO LIVRO
Helio Jorge P. Severiano Ribeiro (UENF)
A Estratigrafia de Seqüências é um ramo da Estratigrafia que se desenvolveu de forma aprofundada e específica, a tal ponto que vem se constituindo quase como um segmento individualizado dentro das geociências. Nos últimos anos, os eventos geocientíficos vêm dedicando espaços próprios, via sessões temáticas e simpósios, para a apresentação de trabalhos com conteúdos específicos sobre o assunto.
Para muitos autores, a Estratigrafia de Seqüências é vista como uma verdadeira revolução científica dentro das geociências (Miall, 1992 e Della Fávera, 1995), podendo-se comparar que o mesmo significado que teve a Teoria da Tectônica de Placas para a geociências como um todo, teve a Estratigrafia de Seqüências para a área de geologia sedimentar e análise de bacias, ou seja, reformulou completamente a maneira pela qual passaram a ser estudados as sucessões de estratos sedimentares (algumas vezes, até mesmo metassedimentos).
Esta nova forma de fazer estratigrafia foi muito apropriadamente metaforizada por Bally (1987), quando comparou os conceitos da Estratigrafia de Seqüências com uma fábula hindu sobre os seis cegos que buscam reconhecer o que é um elefante, tocando cada um deles individualmente numa das partes do corpo do animal, cada cego passou, portanto, a ter em seu imaginário de elefante a forma específica que ele havia tocado, sem, porém, ter a visão do todo. O surgimento da Estratigrafia de Seqüências veio possibilitar exatamente esta visão do todo na análise de bacias sedimentares, conciliando num só arcabouço as informações advindas de diversos campos da geologia sedimentar, tais como a sedimentologia, a bioestratigrafia, a paleogeografia, entre outros. Além de e principalmente, permitir agregar neste mesmo arcabouço diferentes fontes de dados geológicos: descrição litológica, perfis geofísicos de poços, informações paleontológicas, seções sísmicas, etc., ou seja, as diferentes visões de cada uma das especialidades da geologia sedimentar vistas no seu todo e de forma integrada. A comparação da fábula hindu com a Estratigrafia de Seqüências foi ilustrada na capa do Atlas of Seismic Stratigraphy - Volume 1 (Bally, 1987) com um elefante em subsuperfície sendo "acusticamente sondado" por um geólogo, sobre um fundo de uma seção sísmica, e que aqui reproduzimos na Figura 1.1, pois, não raro, esta figura é utilizada ou para iniciar ou para concluir cursos de Estratigrafia de Seqüências e/ou Sismo-estratigrafia, ministrados por pesquisadores do assunto.
Na área técnica/industrial a Estratigrafia de Seqüências é hoje o paradigma máximo para a exploração e explotação de petróleo. Na fase de exploração, constituiu-se na base conceitual para a interpretação e descoberta, pela PETROBRÁS, dos campos gigantes da Bacia de Campos, no offshore do Estado do Rio de Janeiro, ou seja, os reservatórios associados aos denominados Leques de Lowstand (leques submarinos depositados em sopé de talude nos momentos das mais elevadas taxas de quedas eustáticas). Na fase de explotação, é fundamental a aplicação do conceito de paraseqüências no zoneamento dos reservatórios produtores de petróleo.
Nos cursos de pós-graduação da área de geologia sedimentar tem sido cada vez maior o número de teses/dissertações cujos títulos versam sobre o tema. Quanto aos cursos de graduação em Geologia, a disciplina de Estratigrafia, já de algum tempo, não pode prescindir do conteúdo sobre Estratigrafia de Seqüências.
Apesar da profunda penetração dos conceitos da Estratigrafia de Seqüências na área técnica e acadêmica, não existe no Brasil, até os meados do ano 2.000, nenhum livro que aborde este tema de forma adequada e aprofundada.
A nível de livros de Estratigrafia para alunos de graduação a área de geologia sedimentar é razoavelmente bem suprida de livros em língua portuguesa, podendo-se citar, entre os mais conhecidos, Rochas Sedimentares (Suguio, K., 1994, Edgard Blücher/EDUSP), Elementos de Estratigrafia (Mendes, J. C., 1984, T. A. Queiroz/EDUSP) e Introdução ao Estudo da Estratigrafia (Popp, J. H., 1987, Scientia et Labor); entretanto, somente este último dedica um capítulo ao conceito de Seqüência Deposicional, porém, consubstanciado ainda nos conceitos publicados em 1977 (Seismic Stratigraphy - Application to Hidrocarbon Exploration, Payton, C. E., ed., AAPG, Memoir # 26), ou seja, conceitos publicados a mais de 20 anos e parcialmente já ultrapassados.
Comparativamente, no exterior existe uma profusão de livros sobre o assunto, tanto sobre os aspectos gerais, por exemplo: The Geology of Stratigraphic Sequences (Miall, A. D., Springer-Verlag), como em enfoques específicos, tal como: Siliciclastic Sequence Stratigraphy - Recent Developments and Applications (Weimer, P. & Posamentier, H. W., AAPG Memoir 58). Felizmente para a comunidade geocientífica de língua portuguesa, estão sendo lançados dois livros sobre Estratigrafia de Seqüências, um de autoria do Prof. J. C. Della Fávera (Fundamentos da Estratigrafia Moderna) e este que ora está sendo apresentado.
Este livro não tem a pretensão de esgotar o assunto e nem abranger todos os aspectos da Estratigrafia de Seqüências. O objetivo principal é apresentar, ao nível de alunos de graduação e pós-graduação, o conteúdo básico sobre o assunto, algumas técnicas que se utilizam do arcabouço conceitual da Estratigrafia de Seqüências nas suas interpretações, além de aplicações do conceito na montagem da arquitetura deposicional de alguns depósitos (marinhos/costeiros, continentais e jazidas de carvão). Aqui, é importante observar algumas lacunas que neste compêndio não foram preenchidas. Especificamente, deve-se citar a ausência de capítulos sobre a aplicação do conceito em depósitos carbonáticos, em ambientes glaciais e de águas profundas; apesar de se ter conhecimento de pesquisadores que poderiam contribuir nestes assuntos, não foi possível, por questões conjunturais, a participação dos mesmos nesta edição.
Na montagem da equipe dos membros participantes deste livro buscaram-se aqueles pesquisadores que são especialistas em determinadas áreas de geologia sedimentar e que fazem da Estratigrafia de Seqüências o substrato básico de seus trabalhos, na elaboração de arcabouços estratigráficos mais fidedignos. Na equipe inicial constavam 12 pesquisadores, aos quais se agregaram mais três, somando um total de 15 co-autores desta obra.
Da proposta original do livro não constava um capítulo que versasse sobre o método sísmico, pensava-se incluir um breve item sobre o assunto dentro do capítulo sobre sismo-estratigrafia. Entretanto, não se crê que para o público alvo deste livro, alunos de pós-graduação e de final de graduação, um só item seria o suficiente para a perfeita compreensão do capítulo sobre sismo-estratigrafia, principalmente, para se entender o significado geológico-estratigráfico de uma reflexão sísmica, i. é, a relação entre espessura de rocha sedimentar e o traço sísmico; para tanto se fez necessário agregar um capítulo que, além de abordar o método sísmico de reflexão, enfocasse os aspectos sobre a resolução sísmica. Desta forma, foi convidado o Prof. Jorge Leonardo Martins, para escrever tal capítulo.
Outro pesquisador que juntou-se ao grupo de co-autores deste livro foi o geólogo Laury M. de Araújo, que, estando na fase final de seu doutorado, juntou-se ao Prof. Jorge A. Trigüis na elaboração do capítulo sobre a petrografia orgânica e os tratos de sistemas deposicionais.
O terceiro a se agregar ao grupo foi o Prof. Paulo Paim, que cooperou com o Prof. Ubiratan F. Faccini na confecção do capítulo sobre a aplicação da Estratigrafia de Seqüências em depósitos continentais.
Este livro está dividido em três partes. Uma parte introdutória na qual consta um capítulo em que é discutida a evolução do conceito de seqüência, em que é mostrado de forma pertinente que tal conceito, amplamente aceito na década de 70, tem a sua origem nos pensamentos dos primeiros geocientistas, além de ter sua formulação básica já bem estabelecida desde a década de 50 (Sloss et al., 1949). Outro capítulo introdutório é o que diz respeito à cicloestratigrafia, uma vertente da Estratigrafia de Seqüências que trata dos ciclos sedimentares que se repetem em alta freqüência (dezenas a centenas de milhares de anos). Concluindo a parte introdutória, é apresentado o método sísmico e noções de resolução sísmica, numa abordagem adequada, tendo sido evitado o aprofundamento teórico da propagação de ondas, desnecessário ao que se objetiva com este capítulo, ou seja, fornecer subsídios ao capítulo seguinte sobre sismo-estratigrafia.
A segunda parte do livro dedica-se a conceituação básica da Estratigrafia de Seqüências e da Sismo-estratigrafia, apresentando as principais definições sobre o assunto.
Na terceira parte são apresentadas três técnicas complementares que contribuem sobremaneira na elaboração de arcabouços estratigráficos com base na Estratigrafia de Seqüências: a micropaleontologia, a icnologia e a petrografia orgânica. Estes três capítulos acrescentaram um valor a mais ao objetivo primeiro deste livro; além da abordagem sobre o tema principal do livro, estes capítulos apresentam um levantamento up to date sobre estas respectivas técnicas, ou seja, os conteúdos destes capítulos serão, certamente, fontes de consulta inicial para qualquer aluno ou pesquisador que queira dar os primeiros passos dentro da micropaleontologia, da icnologia e da petrografia orgânica, sendo, desta forma, uma grande contribuição atualizada à área de estratigrafia lato sensu.
Na quarta parte do livro é visto a aplicação do conceito da Estratigrafia de Seqüências em sistemas deposicionais siliciclásticos marinhos e costeiros, ambiente no qual surgiram as primeiras aplicações do conceito; além da utilização em depósitos continentais e em jazidas de carvão. A utilização do conceito na montagem de arcabouços estratigráficos em jazimentos de carvão tem obtido um sucesso muito grande, principalmente em nível de interpretação de empilhamento paraseqüências. Isto é corroborado por diversas teses e dissertações de geólogos da PETROBRÁS e de cursos de pós-graduação do país (p. ex., UFRGS, UNISINOS, UNESP-Rio Claro, UERJ, entre outras), que utilizaram dados de testemunhagem e de perfilagem geofísica da CPRM, levantados no sul do país.
A aplicação da Estratigrafia de Seqüências em depósitos continentais está, pode-se dizer, na sua fase juvenil ainda, muito se tem para pesquisar e discutir nesta área, porém, o mais importante é que existe uma ampla aceitação que as suas fundamentações teóricas, tal como o conceito de espaço de acomodação, pode ser aplicado para interpretar a arquitetura dos depósitos continentais, obviamente, com as devidas adaptações, já que o fator controlador das variações do nível de base não é a oscilação eustática, como propugna a chamada Escola da Exxon.
A intenção deste livro não é substituir a pesquisa bibliográfica sobre os diversos aspectos do assunto, mas sim ser uma fonte inicial para busca de referências bibliográficas e, também, para aqueles que estão iniciando no tema, ser um facilitador para a leitura de artigos mais aprofundados. É recomendável, para uma perfeita assimilação dos conteúdos desta obra, que o leitor tenha conhecimentos mínimos de estratigrafia e sedimentologia; especificamente, conhecimentos sobre ambientes e sistemas deposicionais, para o que recomendamos os livros Sedimentary Environment and Facies (Reading, 1986) e Facies Models - Response to Sea Level Change (Walker. & James, 1992).
Deve-se destacar que todos os co-autores tiveram a total liberdade para elaborar os seus respectivos capítulos, tendo ao organizador do livro as tarefas de buscar a homogeneização editorial, evitar os overlaps excessivos, e, principalmente, mostrar a todos o espírito filosófico do livro.
Finalmente, deseja-se agradecer à Fundação CAPES que através do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (PADCT III), gerido pela FINEP, apoiou financeiramente a elaboração desta obra, permitindo a sua publicação a um preço acessível a alunos de graduação e pós-graduação. Deseja-se agradecer, também, a todos aqueles profissionais conhecidos e anônimos (consultores ad hoc) que acreditaram e contribuíram de forma direta ou indireta para a consecução desta obra.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Bally, A. W. (ed.). Atlas of Seismic Stratigraphy. Tulsa, AAPG, v. 1, 125 p, (AAPG Studies in Geology # 27).
Della Fávera, J. C. 2001. Fundamentos da Estratigrafia Moderna. Rio de Janeiro, EdUERJ, 263 p.
Della Fávera, J. C. 1995. Fundamentos da Estratigrafia Moderna - Notas de Aula. (2 ed.). Rio de Janeiro, UERJ/FG/LABCG, 165 p.
Mendes, J. C., 1984. Elementos de Estratigrafia, São Paulo, T. A. Queiroz/EDUSP, 566 p.
Miall, A. D. 1984. Principles of Sedimentary Basin Analysis. 2 ed. New York, Springer-Verlag, 409 p.
Miall, A. D. 1997. The Geology of Stratigraphic Sequences. Berlin, Springer-Verlag, 433 p.
Payton, C. E. 1977. Seismic Stratigraphy - Application to Hidrocarbon Exploration, Tulsa, AAPG, 516 p. (Memoir # 26).
Popp, J. H., 1987. Introdução ao Estudo da Estratigrafia e da Interpretação de Ambientes de Sedimentação. Curitiba, Scientia et Labor, 323 p.
Reading, H. G. 1986. Sedimentary Environment and Facies. (2ed.), Oxford, Blackwell Science, 615 p.
Sloss, L. L., Krumbein, W. C., Dapples, E. C. 1949. Integrated facies analysis. In: Longwell, C. R. (ed.) Sedimentary Facies in Geologic History. Geological Society of America, 91-124, (Memoir # 39) .
Suguio, K. 1994. Rochas Sedimentares: Propriedade, Gênese e Importância Econômica. São Paulo, Edgard Blücher/EDUSP, 500 p.
Walker, R. G. & James, N. P. 1992. Facies Models - Response to Sea Level Change. Stittville, Geological Association of Canadá, 454 p.
Weimer, P. & Posamentier, H. W. 1993. Siliciclastic Sequence Stratigraphy - Recent Developments and Appliations. Tulsa, AAPG, 492 p. (Memoir # 58)